Ou talvez por causa de seu filho, cego de nascença, como um mendigo, o que aconteceu surpreendeu imediatamente muitas pessoas.

“Meu passado queima”, disse ele. “Não me restou nada daquele homem, Zainab. Apenas o conhecimento de como curar. Tenho tratado os doentes da aldeia à noite, em segredo. É daí que vem o cobre extra. Foi assim que comprei seu remédio na semana passada.”

Zainab estendeu a mão, os dedos trêmulos, traçando os contornos do rosto dele. Encontrou a ponte do nariz, as olheiras, a umidade nos olhos. Ele não era o monstro que sua irmã havia descrito. Era um homem destruído pela própria humanidade, tentando reconstruí-la com a dela.

“Você deveria ter me contado”, disse ele.

“Eu tinha medo de que, se você soubesse que eu era médico, me pediria para curar a única coisa que não posso”, disse ele, com a voz embargada. “Não posso te dar a visão, Zainab. Só posso te dar a minha vida.”

A tensão no ar explodiu. Zainab o puxou para perto, enterrando o rosto na curva do seu pescoço. A cabana era pequena, as paredes finas, e o mundo exterior implacável, mas em meio à tempestade, eles não eram mais fantasmas.

Anos se passaram.

A história da “Menina Cega e do Mendigo” tornou-se uma lenda local, embora o final tenha mudado com o tempo. As pessoas notaram que a pequena cabana à beira do rio havia se transformado. Agora era uma casa de pedra, cercada por um jardim tão perfumado que podia ser explorado apenas pelo olfato.

Eles perceberam que o “mendigo” era, na verdade, um curandeiro cujas mãos podiam aliviar a febre melhor do que qualquer cirurgião caro da cidade. E notaram que a mulher cega caminhava com uma graça que lhe dava a impressão de ver coisas que os outros não conseguiam.

Numa tarde de outono, uma carruagem parou em frente à casa de pedra. Malik, envelhecido e definhado pela própria amargura, saiu. Sua sorte havia mudado; suas outras filhas casaram-se com homens que o exploraram até a última gota, e seus bens estavam em processo de inventário. Ele viera buscar o que havia descartado, na esperança de encontrar um lugar para repousar a cabeça.

Ele encontrou Zainab sentada no jardim, tecendo uma cesta com facilidade.

“Zainab”, ele sussurrou, usando o nome dela pela primeira vez.

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