Fui apresentado a uma garota obesa em um encontro às cegas… Mas minha reação fez com que todos os presentes caíssem em lágrimas.

Ela me fez escolher poesia. Eu a fiz escolher um livro de receitas. Nenhuma de nós comprou o que pretendia comprar. Isso me pareceu um sinal.

Depois fomos a um pequeno café, com cadeiras diferentes e janelas grandes.

No meio do café, Valeria mexeu a xícara e perguntou:

—Posso dizer algo constrangedor?

—Com a nossa experiência, acho que já superamos a média.

Ela sorriu, mas logo ficou séria.

—Você sentiu que precisava me defender?

Eu poderia ter respondido rapidamente. Mas não respondi.

—Senti que Oscar tentou fazer de você o alvo de uma piada que me recusei a ouvir.

Seus olhos permaneceram fixos nos meus.

—E se eu tivesse dirigido sozinho?

—Eu teria gostado de vê-lo sofrer.

Ela soltou uma risada clara e radiante.
Depois, olhou para baixo.

—Estou acostumada a que as pessoas decidam coisas sobre mim antes mesmo de me ouvirem falar. Sobre o meu corpo. Sobre o meu valor. Sobre o que eu mereço.

Fiquei magoado com a calma com que ele disse isso.

—Quando você olhou para mim como se eu fosse apenas a pessoa sentada ao seu lado… isso importou.

—Você era—eu respondi. Exatamente isso.

O encontro não terminou com um café. Passeamos por uma loja de artigos de arte, onde ela me fez adivinhar para que serviam os diferentes pincéis. Eu definitivamente errei. Ela valorizava a certeza, não a precisão.

Ao final da tarde, em frente ao prédio, nenhum deles tinha uma desculpa esfarrapada para prolongar o dia por mais tempo.

Então o celular dele vibrou.

Valéria olhou para a tela e sua expressão mudou. Não era medo. Era cansaço.

Era uma mensagem de Mariana:

“Ouvi dizer que você e o Daniel estão namorando. Que bom! O plano finalmente deu certo.”

Valéria olhou fixamente para a mensagem.

“Não quero que eles pensem que merecem crédito por isso”, sussurrou ela.

Olhei para o meu celular e depois para ela.

—Eles não têm isso. Criaram um ambiente ruim. Você criou tudo o que vale a pena admirar.

Algo em seu rosto suavizou-se.

Ele guardou o celular.

—Suba para tomar um chá, Daniel. Não quero que este encontro termine ainda.

Subi as escadas.

Seu apartamento era aconchegante, cheio de plantas, desenhos de estudantes emoldurados, cadernos sobre a mesa e um vaso azul com doces perto da porta.

“Minha coleção de chás sugere que sou mais estável emocionalmente do que realmente sou”, alertou ele.

—Vou tentar não me deixar enganar.

Estamos falando de coisas simples. Encanamento ruim. O cheiro de livrarias. Se adultos podem ter cobertores decorativos demais sem serem julgados.

Então Valéria ficou em silêncio.

“A pior coisa de virar motivo de piada”, disse ele, “é que depois todo mundo espera que você fique grato quando alguém para de zombar de você.”

—Você não quer reconhecer o mínimo de decência.

Ele olhou para mim.

-Exato.

Aquele “exato” pesava mais do que qualquer elogio.

“Gostei do que você fez”, disse ela. “Mas gostei ainda mais de você não ter me tratado como se eu fosse frágil depois.”

—Você ameaçou julgar meu desempenho na livraria.

—Você precisava de pressão.

—Acho que respondi bem.

-Sim.

O silêncio que se seguiu foi suave. Pleno.

Então ele me perguntou:

—Diga-me a verdade. O que aconteceu ontem à noite mudou a forma como você me vê?

—Sim—eu respondi.

Sua expressão mal tremeu.

“Isso me fez enxergar você com mais clareza”, acrescentei. “Eu já te achava linda. Mas vi como você se mantém firme. Como você não deixa a amargura te dominar, mesmo quando as pessoas te dão motivos para isso. Como você aceita um pedido de desculpas sem fingir que a mágoa passou. Isso mudou a forma como eu te via. Me fez querer te conhecer melhor.”

Seus olhos brilhavam.

—Isso foi perigosamente preciso.

—Disseram-me que a precisão é importante.

—Isso importa.

E ele me beijou.

Não como agradecimento. Não como consolo. Como uma escolha.

Três meses depois, ela me convidou para a exposição de arte de primavera da sua escola. Observei-a circular entre os alunos, sorrindo, corrigindo, celebrando cada desenho como se fosse uma vitória. Foi então que entendi algo: Valeria não era forte porque nunca havia se machucado. Ela era forte porque não havia permitido que essas mágoas roubassem sua ternura.

Um ano depois, morávamos juntos. Ela trouxe cobertores demais. Eu trouxe livros demais. Compramos mais prateleiras e fingimos que isso resolveu o problema.

Dois anos depois, pedi-a em casamento na livraria, sem plateia, sem microfone, sem espetáculo. Ela estava na seção de arte, segurando um livro que não tinha intenção de comprar.

Ajoelhei-me e disse a coisa mais sincera que tinha para dizer:

—Não quero ser o homem que te defendeu uma noite. Quero ser o homem que te escolherá todos os dias comuns depois daquela noite.

Valéria chorou, depois riu, depois disse sim, antes de me acusar de manipulá-la com relação ao local.

Ele tinha razão.

Quando as pessoas perguntam como nos conhecemos, ela sorri e diz:

—Um grupo de pessoas nos causou uma péssima impressão.

E eu sempre acrescento:

—Por sorte, eles nos subestimaram.

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