Parte 2
Ao amanhecer, a casa cheirava a manteiga, fumaça e julgamento.
Fritei frango até a pele ficar dourada e crocante. Assei biscoitos que cresceram como punhos brancos e macios. Misturei camarão com grits, presunto glaceado, couve, torta de pêssego, molho de café, chá doce em jarras de cristal. Um banquete sulista enorme, do tipo que Marcus achava que provava que uma mulher havia aprendido o seu lugar.
Meus lábios pulsavam cada vez que eu sorria.
Às seis e meia, Marcus desceu as escadas de roupão azul-marinho, recém-banhado, com uma arrogância que chegava a contaminar o ar. Celeste o seguiu, com diamantes no pescoço, embora o sol mal tivesse nascido.
Marcus parou na entrada da sala de jantar. Seus olhos se arregalaram diante da variedade de pratos.
“Bem”, disse ele, puxando a cadeira da cabeceira da mesa. “Essa é uma boa esposa.”
Celeste murmurou satisfeita. “Viu? Disciplina melhora uma família.”
Coloquei os talheres de prata na mesa, um de cada vez. O conjunto havia pertencido à minha avó. Marcus tentara vendê-lo uma vez para pagar uma dívida de pôquer. Dissera ao comprador que eu era sentimental, fraca e fácil de manipular.
“Senta-te”, eu disse.
Ele piscou. “Com licença?”
“A comida está esfriando.”
Seu sorriso se acirrou. “Cuidado, Lena.”
Servi o café dele. “Com creme, sem açúcar. Como sempre.”
Ele recostou-se, vitorioso. “Talvez ainda haja esperança para você.”
O celular dele vibrou ao lado do prato. Ele ignorou. Então vibrou de novo. E de novo. Celeste franziu a testa.
“Popular esta manhã?”, perguntei.
Marcus olhou para a tela. Pela primeira vez, seu rosto mudou de cor.
Número desconhecido.
Depois, outra.
Em seguida, seu advogado.
Depois, o banco dele.
Ele ergueu o olhar lentamente. “O que você fez?”
Passei manteiga em um biscoito. “Eu cozinhei.”
O interfone do portão da frente tocou uma vez. Marcus ficou rígido.
Antes que ele pudesse se mexer, as caixas de som da casa ligaram. Sua própria voz preencheu o cômodo, preguiçosa e embriagada.
“Lena assina tudo o que eu coloco na frente dela. Ela não lê contratos. Ela lê livros de receitas.”
Celeste deixou cair o garfo.
Outra voz se seguiu. Era uma mulher rindo. Depois, Marcus novamente.
“Assim que o conselho dela a destituir, a empresa será minha. Os irmãos dela não vão nem chegar perto de mim. São criminosos. Vou acabar com eles com um telefonema.”
Marcus levantou-se de um salto. “Desligue isso.”
Eu não me mexi.
Porque essa gravação já havia sido enviada ao meu conselho, ao advogado dele, a três investigadores federais e ao promotor público que meu segundo irmão havia ajudado a se formar em direito anos antes de Marcus sequer saber meu sobrenome.
As portas da cozinha se abriram de repente.
Rafael saiu primeiro, de ombros largos e terno cinza-escuro, enxugando as mãos com um dos meus guardanapos brancos impecáveis.
Então Dante, calmo e sorridente, com seu relógio de ouro reluzindo.
Então Nico, o caçula dos meus irmãos mais velhos, carregava uma caixa de evidências lacrada como se fosse um presente.
Marcus cambaleou para trás.
A cidade os chamava de capitães do sindicato. Eles se autodenominavam homens da logística. Eram donos de docas, sindicatos, clubes, dívidas, segredos.
Mas hoje, sua verdadeira arma era a papelada.
Rafael jogou o guardanapo no prato vazio de Marcus.
“Bom dia, cunhado”, disse ele. “Espero que esteja com fome.”
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