Estava muito mais clara do que deveria. O filhote correu até ela, lambendo seu rosto freneticamente, como se tentasse trazê-la de volta à vida. Não era “fofo” nem algo para compartilhar; era sobrevivência, crua e real.
Meu colega chegou instantes depois, ofegante. Ao ver a cena, não disse nada.
Não havia necessidade. Pedi água. Demos pequenos goles à mãe, com cuidado para não a apressar. Ela engoliu fracamente e ficou imóvel. O filhote aconchegou-se em seu pescoço, tremendo, como se tivesse atravessado o mundo inteiro para chegar àquele momento.
Meu parceiro finalmente sussurrou: “Como alguém poderia…?”
Eu não sabia o que dizer. Algumas perguntas não têm respostas decentes. Tudo o que eu conseguia fazer era encarar a lata de lixo e sentir uma raiva amarga. Mas a raiva não me salvaria. O que me salvaria seria agir.
Ligamos para uma organização de resgate local e para o veterinário de plantão. Enquanto esperávamos, cobri a cadela com uma jaqueta. O filhote não saía do lado dela. Toda vez que a mãe fechava os olhos, o pequeno dava um leve empurrão com o focinho, como se dissesse: “Não durma. Agora não.” Aquele instinto… aquela lealdade… me deixou sem palavras.
Em certo momento, um carro passou pela estrada e diminuiu a velocidade. O motorista olhou de relance, hesitou e seguiu em frente. Vi o filhote levantar a cabeça como se o tivesse reconhecido: indiferença. Provavelmente, ele já havia tentado parar muitos outros antes de nós. E ninguém havia parado. Pensei nisso e senti uma vergonha coletiva, como se toda a humanidade tivesse falhado por um único instante.
Quando o caminhão de resgate finalmente chegou, a cadela respirava um pouco melhor, mas ainda estava fraca. Com cuidado, a colocamos dentro. O filhote tentou subir também e quase caiu de tanta emoção. Peguei-o no colo e o coloquei ao lado dela. Assim que tocou o corpo da mãe, ele se acalmou, como se sua missão finalmente tivesse terminado.
Na clínica veterinária, explicaram que a cadela estava desidratada e muito estressada, mas que, se respondesse aos fluidos intravenosos e conseguisse descansar, teria uma chance. “Chance” é uma palavra estranha. Às vezes soa como esperança; outras vezes, como acaso. Não sou muito religiosa, mas naquela noite, enquanto assinava os papéis e ouvia o gotejamento do soro, fiz uma espécie de promessa silenciosa: se ela sobrevivesse, eu faria mais do que apenas dizer “que pena”.
Horas se passaram. O filhote, que não parou de olhar para a mãe durante todo o trajeto, agora dormia aos trancos e barrancos, exausto.
Tinha pelos ásperos, barriga afundada e, mesmo dormindo, parecia alerta. Cada vez que sua mãe se mexia, acordava. Essa conexão me fez pensar em todas as vezes que nós, humanos, dizemos “eu não consigo” e desistimos. Mas essa criaturinha não havia desistido. Ela havia buscado ajuda… e teve a audácia de pedi-la a qualquer um que estivesse disposto a ouvi-la.
Ao amanhecer, a cadela abriu os olhos com mais clareza. Não se levantou, mas olhou em volta, como se tentasse se orientar. Quando viu o filhote, soltou um longo suspiro e repousou a cabeça sobre ele. O pequeno emitiu um som que não era latido nem choro; era puro alívio, como se todo o seu corpo estivesse sendo libertado de um fardo. Recuei por um instante, pois meus olhos ardiam. Não queria que ninguém me visse chorando por “um cachorro”, como dizem algumas pessoas, sem entender nada.
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