—Sr. Javier, eu não os machuquei.
—Eu não disse isso.
—Eu sei que você tem regras. Que eu não devo movê-los sem autorização. Mas eles são capazes de mais do que parece. Eles só precisam de tempo.
—Os médicos disseram outra coisa.
Valéria baixou o olhar.
—Às vezes, os médicos descrevem o que veem em dez minutos. Eu vejo isso o dia todo.
Javier cerrou os dentes.
—Onde você aprendeu isso?
Ela demorou um pouco para responder.
—Com meu irmão.
—Seu irmão?
—Seu nome era Tomás.
O passado surgiu em sua voz como uma sombra.
—Ele nasceu com paralisia cerebral. Minha mãe trabalhava como faxineira em Coyoacán. Eu cuidei dele desde criança porque não tínhamos dinheiro suficiente para pagar enfermeiras. Levávamos ele para terapias no DIF (Sistema Nacional de Desenvolvimento Integral da Família) quando conseguíamos pagar a passagem de ônibus, e depois para uma associação em Tlalpan, onde nos ensinaram que nem todo progresso se mede pela capacidade de andar. Às vezes é manter a cabeça erguida. Às vezes é abrir a mão. Às vezes é conseguir dizer “sim” com os olhos.
Javier não disse nada.
O Guia de Prática Clínica Mexicano para o manejo de crianças com paralisia cerebral aborda a avaliação de funções, comorbidades, reabilitação e acompanhamento por diferentes especialidades; os CRITs também descrevem um modelo abrangente focado na família e na independência funcional, e não na promessa de milagres.
Valeria prosseguiu:
—Thomas morreu aos dezessete anos.
Javier sentiu algo apertando-o.
-Desculpe.
-Eu também.
Ela mexeu o mingau.
—Mas antes de morrer, ela aprendeu a dizer meu nome usando uma pequena prancha de letras. Levou oito meses. Quando conseguiu, minha mãe chorou como se tivesse caminhado todo o caminho até a Basílica.
Javier olhou para o corredor onde estavam seus filhos.
—Por que você não disse tudo isso quando foi contratado?
Valéria sorriu tristemente.
—Porque você não estava procurando alguém que soubesse amar crianças com deficiência. Você estava procurando alguém que obedecesse às câmeras.
A frase o atingiu em cheio.
Ele queria ficar com raiva.
Ele não conseguiu.
Porque era verdade.
Ele não foi ao escritório naquele dia.
Ele permaneceu escondido atrás da porta da sala, observando Valeria trabalhar com os gêmeos. Ela não exigia muito deles, ao contrário dos terapeutas que falavam inglês e cobravam em dólares. Ela pedia muito pouco. Esperava muito. Celebrava as menores coisas como se fossem ouro.
—Mateo, se você quiser mais música, pisque duas vezes.
O menino demorou um pouco.
Um deles piscou.
Valéria esperou.
Outra pessoa piscou.
—É isso aí. Eu sabia.
Javier sentiu os olhos marejarem.
Lucas moveu a boca.
—Aaa…
Valeria aproximou-se.
-Água?
Lucas fez o som novamente.
Ela lhe deu água com uma colher especialmente adaptada.
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