Ela abriu a maquiagem com as mãos trêmulas. A base cobriu apenas uma borda, não o centro. A dor ainda estava lá, sob a pele, latejando a cada movimento da mandíbula.
Ao meio-dia, Dona Elvira chegou com pão doce. Entrou como se já fosse dona do apartamento, colocou a sacola sobre a mesa e olhou para o rosto de Mariana com um sorriso quase excessivamente puro.
“Ai, querida, que cara é essa? Você está horrível. É por isso que o Rodrigo chega tão cansado, com uma esposa que nem se dá ao trabalho de se arrumar.”
Rodrigo comeu sem defendê-la. Mexeu o pozole com a colher, bebeu água e deixou que a mãe preenchesse o silêncio com pequenas crueldades disfarçadas de preocupação.
A mesa permaneceu imóvel, numa cena familiar a muitos lares. A vítima sentava-se ereta, o agressor agia normalmente, a testemunha fingia não ver, pois ver a obrigaria a escolher.
Um guardanapo caiu no chão. Ninguém o apanhou. A luz do sol que entrava pela janela tornava as marcas no rosto de Mariana mais visíveis, e não menos.
Ao término do almoço, Rodrigo pegou sua pasta e se levantou. Ele havia recuperado seu tom de voz autoritário, o mesmo que usava nas ligações do escritório.
—Vou para o escritório. Não saia. Não faça nenhuma ligação. E lembre-se: minha mãe vai ficar aqui a partir de amanhã.
Dona Elvira sorriu satisfeita. Para ela, aquela refeição não tinha sido uma refeição, mas uma inspeção. Ela testemunhara o golpe e decidira impor a ordem à violência.
Rodrigo fechou a porta. Mariana esperou ouvir o elevador descer. Depois, esperou mais vinte segundos, porque a prudência também se aprende em casas onde uma porta pode reabrir.
Ela foi até o armário, puxou dois cobertores velhos e tirou uma pasta azul. Ninguém naquela casa sabia da existência dela. Ninguém, exceto ela e o homem que esperava sua ligação.
Dentro da caixa havia cópias da carta constitutiva da empresa, do contrato de compra e venda, da carta de fechamento do negócio e um e-mail impresso com o horário de recebimento: 23h43 da noite anterior.
A empresa onde Rodrigo trabalhava como diretor financeiro havia mudado de mãos após semanas de negociações privadas. Mariana não dissera nada porque, durante anos, Rodrigo a ensinara a esconder até mesmo seus pensamentos.
Ele achava que ela não entendia de dinheiro porque nunca a ouvia falar sobre isso. Confundiu discrição com ignorância, paciência com fraqueza e casamento com posse.
Às 12h47, Mariana discou o número escrito em um cartão dentro da pasta. Atenderam no segundo toque.
—Estou pronta — disse ela.
Do outro lado da linha, uma voz masculina respondeu com calma profissional.
—Estaremos esperando por você na Avenida Reforma. Tudo muda hoje.
Antes de sair, Mariana também guardou o atestado médico que havia obtido naquela manhã. Ela não estava tentando dramatizar a reunião. Queria garantir que ninguém pudesse alegar desconhecimento posteriormente.
Ela chegou ao escritório da empresa com o rosto descoberto. O recepcionista olhou para baixo ao ver o hematoma, mas não fez nenhuma pergunta. Acompanharam-na até a sala de reuniões com excessiva cortesia.
A sala era espaçosa, fresca e iluminada. Havia garrafas de água enfileiradas, pastas pretas em cada assento e uma vista da cidade que parecia alheia a quaisquer problemas domésticos.
Mariana sentou-se na cabeceira da mesa. Ela não tremeu até colocar a pasta azul sobre a mesa. Então, respirou fundo e apoiou as duas palmas das mãos na madeira polida.
Não era apenas uma cadeira. Era o lugar que Rodrigo jamais teria imaginado para ela.
Às 14h31, Rodrigo entrou no prédio. Cumprimentou os funcionários com a segurança de um homem acostumado a que as portas se abram antes mesmo de bater.
A recepcionista mal conseguia olhar para ele.
—Eles estão esperando por você na sala de reuniões. O novo proprietário chegou.
“Novo dono?”, perguntou ele, franzindo a testa.
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